28/05/2009

Lars Grael fala sobre os obstáculos e as adversidades como motivação

O velejador Lars Grael foi o terceiro convidado a participar do Congresso Brasileiro de Atualização Profissional, em uma palestra realizada no dia 7 de maio, no campus Paraíso.

 

Lars, que é membro do Conselho Nacional do Esporte, presidente da Comissão Nacional de Atletas e conselheiro do Instituto Rumo Náutico, foi dez vezes campeão brasileiro de vela e duas vezes medalhista de bronze em Olimpíadas.

 

Em 1998, na Semana de Vela de Vitória, no Espírito Santo, uma lancha desgovernada provocou um acidente que resultou na perda de uma das pernas do atleta, além de causar outros ferimentos, que, juntos, quase o levaram à morte. Com a ajuda da equipe técnica e por estar acostumado a treinamentos olímpicos, ele se recuperou e voltou ao mar.

 

Usando essa e outras experiências como exemplo, o velejador abordou o temaO obstáculo e a adversidade como motivação e iniciou a palestra contando como se interessou, junto com o irmão Torben, pelo esporte. “Meu avô, o velho Preben Schmidt, ensinou a minha mãe, meus tios e mais tarde a nós, os netos, a velejar. Nos anos 50, meus tios foram os primeiros campeões mundiais de vela brasileiros e nós víamos neles uma idolatria, uma referência, uma vontade de copiar o orgulho que eles representavam para a gente”, relembrou.

 

No entanto, uma das dificuldades enfrentadas pelos irmãos Grael, que, ao longo da carreira, velejaram tanto juntos como com outros proeiros, foi a falta de dinheiro para a aquisição de um equipamento de ponta.  “Como nosso barco era defasado tecnicamente, nós tínhamos de ter algum diferencial em nosso favor. Tínhamos de treinar muito mais do que os outros. Era treinamento todo santo dia, fosse calmaria ou vento forte, frio ou calor, sol ou chuva. Velejávamos direto para automatizar os movimentos e ter uma sinergia um com o outro. Era quase que um instinto de leitura de vento, de manobra, de tática”, declarou o esportista.

 

Mais de dez anos depois de sua primeira participação em uma competição, já com a carreira estabelecida, o palestrante sofreu o acidente que mudou a sua vida. “Eu já tinha certeza de que o esporte olímpico era o meu ideal de vida, a vela a minha grande paixão, o mar o meu habitat e já projetava o que seria minha quinta participação nos Jogos Olímpicos, quando, em 1998, fui disputar a Semana de Vela de Vitória, para ganhar ritmo de regata, e aconteceu o que no Brasil hoje, infelizmente, ocorre com certa frequência: um acidente marítimo, fruto da irresponsabilidade de um condutor. Um cara despreparado, mal capacitado e, ainda por cima, embriagado.”

 

Lars falou sobre a dificuldade de aceitar a sua nova condição: “Eu tinha, ao mesmo tempo, uma vontade intensa de viver e, por outro lado, também, uma repulsa em aceitar uma nova realidade de vida. Porque eu vivia do esporte olímpico, do meu corpo, do meu físico. Aceitar a partir dali, com 34 anos de idade, que eu seria um deficiente físico, isso trazia uma revolta que, para mim, estava sendo difícil de resolver”.

 

 

Em seguida, o palestrante contou um episódio importante de sua vida, que resultou na sua recuperação psicológica, após o acidente. “O que eu precisava, e não sabia, era acreditar que poderia ser feliz a partir dali. E isso aconteceu, involuntariamente, quando, numa madrugada, a Claudia, uma enfermeira do hospital em que eu estava, entrou na UTI toda ágil, rápida, faceira e bonita e falou: ‘estou gostando de ver, você está ganhando a luta pela vida’. Eu olhei para ela e disse: ‘você fala isso porque não é com você’. Ela respondeu ‘quem disse que não?’ e contou que na sua adolescência teve um câncer no fêmur e fez uma amputação cirúrgica. Aí colocou prótese, voltou a estudar, formou-se em Enfermagem, teve filhos e, na época, era  diretora de plantão de um hospital de renome internacional. Então ela me mostrou que chegou ao limite da capacidade da carreira dela, apesar daquela adversidade. Ela fez a minha cabeça. Uma mulher tão bem resolvida, tão alegre, o brilho do olhar dela... Eu acordei uma outra pessoa”, disse o velejador.

 

Ainda sobre o assunto, o esportista afirmou que, embora tenha voltado a velejar, os seus parâmetros de sucesso, hoje, são outros: “São resultados que, se eu for comparar com o que eu tinha antes do meu acidente, há quase 11 anos, talvez eu perceba que são menos relevantes. Porém, antes, o desafio que eu tinha era um desafio profissional, era meu ideal olímpico, buscar resultado, ultrapassar metas. Hoje o desafio é muito maior. Primeiro provar a mim mesmo até onde vai a força de vontade. Segundo, da mesma forma que pessoas serviram de referência para mim, para eu ter motivação de viver e voltar a praticar o esporte e ser útil à sociedade, eu sei que eu sou também o exemplo para outras pessoas. Então esse desafio é o mais legal, eu estar ativo, hoje com 45 anos de idade, com uma perna a menos e ainda competindo, dando o sangue e tentando resultados, porque eu sei que eu posso motivar pessoas que passam por situações semelhantes a viver com intensidade”.

 

 

Para finalizar a palestra, Lars estabeleceu uma relação entre o mundo do esporte e o mundo acadêmico. “Para vocês que vão se lançar a uma escolha profissional, a experiência prova que a formação acadêmica é importantíssima e está aqui o papel da UNIP: a especialização, a capacitação, o mestrado, tudo isso ajuda a pessoa a competir no mercado. Mas, ao longo da vida, você percebe que faz bem e faz melhor aquele que faz a coisa com paixão, aquele que bota o coração naquilo que ele quer fazer na vida. Só assim você transforma realmente a utopia em sonho e converte o sonho em realidade. Euacho que isso vale para todos nós e o esporte é uma escola de vida para isso”, concluiu. 


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